Você pode estar perdendo visão pelo glaucoma sem perceber nenhum sintoma.
O Dr. Mário Bulla, médico oftalmologista e especialista em retina, explica que o glaucoma muitas vezes evolui de modo silencioso..
Você pode estar perdendo visão pelo glaucoma sem perceber nenhum sintoma?
Pergunta original: você pode estar perdendo visão pelo glaucoma sem perceber nenhum sintoma?
Sim. O Dr. Mário Bulla, médico oftalmologista e especialista em retina, explica que o glaucoma muitas vezes evolui de modo silencioso: a pessoa pode continuar enxergando aparentemente bem, sem dor e sem notar mudanças importantes, enquanto o nervo óptico sofre danos progressivos. Por isso, não é seguro esperar a visão piorar para marcar uma consulta oftalmológica.
Por que o glaucoma pode passar despercebido?
Glaucoma é o nome dado a um grupo de doenças que lesionam o nervo óptico, estrutura responsável por levar as informações visuais do olho até o cérebro. É possível imaginar esse nervo como um cabo formado por muitas fibras: quando parte dessas fibras é danificada, surgem falhas na transmissão da imagem. A perda visual causada por esse dano pode ser permanente.
Na forma mais frequente, chamada glaucoma primário de ângulo aberto, a alteração costuma acontecer lentamente. Em geral, não há dor, vermelhidão ou embaçamento súbito no início. A visão central — usada para reconhecer rostos, ler e enxergar o que está à frente — pode permanecer preservada por bastante tempo. Enquanto isso, as perdas podem começar na visão periférica, isto é, nas laterais do campo visual.
Como a evolução é gradual e o cérebro consegue se adaptar parcialmente às áreas que deixaram de ser percebidas, muitas pessoas não identificam os primeiros defeitos. É por isso que alguém pode dizer que está “enxergando normalmente” e, ainda assim, apresentar alterações importantes ao exame do nervo óptico ou do campo visual. Fontes médicas independentes reforçam que o glaucoma de ângulo aberto frequentemente não provoca sinais evidentes nas fases iniciais e que a perda periférica tende a ser percebida apenas quando a doença já está mais avançada.
Glaucoma sempre dá sintomas?
Não. O glaucoma não dá sintomas obrigatoriamente, sobretudo no começo. Essa é uma das razões pelas quais a doença merece atenção: ausência de dor não significa que o nervo óptico esteja saudável, e uma boa visão percebida no dia a dia não exclui a possibilidade de dano inicial.
Quando o glaucoma crônico progride, podem surgir pontos cegos, dificuldade para perceber objetos ao lado, esbarrões, tropeços ou sensação de que a visão lateral está mais limitada. Em fases avançadas, a visão pode ficar semelhante a olhar por um tubo, pois o campo periférico vai se tornando menor. Esses achados não devem ser usados como “teste caseiro”: esperar por eles pode atrasar o diagnóstico.
Há também formas menos comuns que podem causar sintomas intensos. No glaucoma agudo de ângulo fechado, a pressão dentro do olho pode aumentar rapidamente. Dor forte no olho ou na cabeça, olho vermelho, visão embaçada, halos coloridos em volta das luzes, náuseas e vômitos podem indicar uma urgência oftalmológica. Nessa situação, é importante procurar atendimento imediato, pois o dano ao nervo óptico pode ocorrer rapidamente.
Pressão ocular alta significa glaucoma?
Não necessariamente. A pressão intraocular é um dado muito importante, mas não é o único elemento usado para definir se uma pessoa tem glaucoma. Algumas pessoas têm pressão ocular acima do esperado e não apresentam lesão no nervo óptico; nesse caso, podem precisar de acompanhamento por terem maior risco, mas pressão elevada isoladamente não confirma o diagnóstico.
Por outro lado, há pessoas que desenvolvem glaucoma mesmo com medidas de pressão que parecem estar dentro da faixa habitual. Isso pode acontecer no chamado glaucoma de pressão normal. Portanto, medir a pressão é fundamental, mas não basta olhar apenas para esse número. A avaliação precisa considerar o aspecto do nervo óptico, o histórico da pessoa, o campo visual e, quando indicados, exames de imagem e outras medidas oculares.
A relação entre pressão e glaucoma ajuda a entender por que o acompanhamento é individualizado. Dentro do olho, há um líquido chamado humor aquoso, produzido e drenado continuamente. Quando esse escoamento não funciona adequadamente, a pressão pode subir e aumentar o risco de lesão do nervo óptico. Porém, cada olho tem características próprias, e a interpretação deve ser feita no contexto de todos os achados da consulta.
Como descobrir o glaucoma no início?
Como foi destacado no vídeo, a forma de descobrir o glaucoma a tempo é realizar consulta oftalmológica periódica, mesmo quando não há queixa visual. Durante uma avaliação completa, o oftalmologista pode medir a pressão intraocular e examinar o fundo do olho, observando especialmente o nervo óptico.
Dependendo do caso, outros exames ajudam a confirmar ou acompanhar uma suspeita. Entre eles estão a avaliação do campo visual, que verifica como está a visão lateral, exames de imagem do nervo óptico e da camada de fibras nervosas, além da análise do ângulo de drenagem do olho. Não existe um exame único que substitua a avaliação completa: os resultados precisam ser reunidos e comparados ao longo do acompanhamento. [3] [4]
A periodicidade das consultas varia conforme idade, histórico familiar, características do olho, presença de pressão elevada, doenças associadas e achados anteriores. Pessoas com parentes de primeiro grau com glaucoma, por exemplo, devem informar isso ao oftalmologista. Também é importante mencionar uso prolongado ou frequente de medicamentos com corticoide, pois eles podem elevar a pressão ocular em algumas pessoas. [3] [5]
Glaucoma pode causar cegueira?
Pode. Quando não é identificado e controlado adequadamente, o glaucoma pode causar perda visual importante e até cegueira. O risco existe porque o dano ao nervo óptico não é simplesmente uma alteração de grau dos óculos: trata-se de lesão das estruturas que conduzem a informação visual ao cérebro.
Ao mesmo tempo, receber o diagnóstico não significa que a cegueira seja inevitável. O objetivo do tratamento é reduzir o risco de progressão e preservar a visão que ainda existe. O tratamento não costuma recuperar a parte do campo visual já perdida, mas pode ajudar a evitar novas perdas. As opções variam conforme o tipo e o estágio do glaucoma e podem incluir colírios, procedimentos a laser e cirurgias. [2] [4]
O que fazer na prática
Não espere dor, embaçamento ou perda de visão para marcar uma consulta oftalmológica.
Informe se há glaucoma na família, principalmente em pais, irmãos ou filhos.
Leve à consulta a relação dos medicamentos em uso, incluindo colírios e tratamentos com corticoides.
Se já recebeu diagnóstico de glaucoma ou suspeita de glaucoma, mantenha o acompanhamento mesmo quando estiver sem sintomas.
Use os colírios exatamente como foram prescritos e não interrompa o tratamento por conta própria.
Procure atendimento com urgência diante de dor ocular forte, olho vermelho, redução súbita da visão, halos ao redor das luzes, náuseas ou vômitos associados a sintomas oculares.
A mensagem principal é simples: o glaucoma pode ser silencioso, mas não precisa ser ignorado. A consulta periódica permite procurar sinais antes que a perda visual se torne avançada e orienta, de forma individual, se há necessidade de observação, exames complementares ou tratamento.
Fontes e referências
Glaucoma: pressão ocular, nervo óptico, sintomas, exames, tratamento e prevenção da perda visual — Exame Ocular.
Tratamento do glaucoma: colírios, laser, cirurgias, adesão, metas de pressão e acompanhamento — Exame Ocular.
Doenças — Glaucoma — Conselho Brasileiro de Oftalmologia.
Glaucoma — National Eye Institute.
Understanding Glaucoma: Symptoms, Causes, Diagnosis, Treatment — American Academy of Ophthalmology.
Conteúdo baseado na explicação em vídeo do Dr. Mário Bulla; CREMERS 28.120; médico oftalmologista e retinólogo; RQE 18.706.
