Serosa Central

A serosa central ou coriorretinopatia serosa central é uma doença caracterizada pela piora da visão central, um embaçamento, muitas vezes sensação de que a imagem na área central da visão está um pouco menor (micropsia) e mais escura.

Esta doença costumeiramente afeta homens na faixa etária que vai dos trinta e poucos até os cinquenta e poucos anos e geralmente está associada a estresse e perfis mais ansiosos, pessoas geralmente muito preocupadas com o trabalho. Também pode afetar mulheres mas com uma incidência bem menor, cerca de cinco a oito homens afetados para cada mulher.

Diagnóstico

O diagnóstico geralmente é feito através da história clínica compatível, exame de fundo de olho ou mapeamento de retina, onde é visualizado um reflexo diferente na mácula que é a área central da retina, muitas vezes acompanhado de alteração de pigmento no fundo de olho, geralmente é solicitado algum exame complementar, mais comumente o OCT (tomografia de coerência óptica), que mostra a presença de fluido subrretiniano (descolamento seroso da mácula), quase sempre associado a um pequeno descolamendo do epitélio pigmentar da retina (DEP) e muitas vezes alterações pigmentares. Outro exame comumente solicitado é a angiografia fluoresceínica (exame da circulação da retina realizado com a injeção de contraste endovenoso) que vai mostrar o ponto de vazamento de líquido na área afetada e muitas vezes também alterações pigmentares presentes. Em caso de dúvida diagnóstica, principalmente quando existe a suspeita de haver uma membrana neovascular subrretiniana (complicação na qual se forma uma malha por proliferação de vasos na área afetada) o que também pode estar presente na DMRI exsudativa, que é um diagnóstico diferencial em pacientes com mais idade, podem ser solicitados os exames de OCTA (angio-OCT) ou angiografia com indocianina verde, utilizdos para examinar em mais detalhes a coróide (rede de vasos que temos abaixo da retina).

Causas

Ainda não temos uma explicação certa da fisiopatogenia da doença, mas acredita-se que é devida a uma falha na circulação da coróide, quando algum vaso começa a permitir uma passagem excessiva de líquido e este líquido vai acumulando-se sob o epitélio pigmentar da retina até o momento em que este também falha, permitindo que o líquido passe para baixo da retina, onde vai se acumular, causando a baixa da visão. Esta doença está muito comumente associada a situações de stress, bem como personalidades mais ansiosas e mais estressadas. O principal fator de risco é o uso de medicações sistêmicas com corticóide.

Prognóstico e tratamento

Felizmente, a grande maioria dos casos, cerca de  80-90% resolvem espontaneamente dentro de um período médio de três a seis meses, nestes casos o prognóstico é muito bom, geralmente havendo recuperação total da visão e não sendo indicado tratamento na maioria dos casos que estão dentro deste período inicial. Alguns pacientes acabam desenvolvendo uma forma crônica da doença, quando fica mais de seis meses ativa, chamada coriorretinopatia serosa central crônica, e um outro grupo de pacientes podem ter recidiva da doença, nestes casos de formas crônicas ou recidivas muitas vezes opta-se por tentar algum tratamento.

A grande maioria dos tratamentos não tem comprovação científica, tendo estudos geralmente controversos, alguns apontando para eficácia e outros para ausência de benefício.

O tratamento tradicional é a realização de fotocoagulação a laser, quando localiza-se o ponto de vazamento de fluido e este encontra-se afastado da fóvea (centro da mácula), pois se for muito central, a própria cicatriz causada pelo laser pode prejudicar a visão, estudos mostraram que o laser é capaz de reduzir a duração da doença, mas cerca de um ano após, não existe diferença estatística em quem faz ou não o laser.

Uma forma mais moderna de aplicar o laser é através de micropulsos, chamado de laser sublimiar, pois ele está abaixo do limiar que causa cicatriz na retina, podendo ser aplicado junto à fóvea sem prejudicar a visão do paciente, para este tratamento também os resultados dos estudos não são definitivos, parte sendo positiva e parte mostrando ausência de resultado.

O tratamento que possui maior comprovação científica de eficácia e segurança é a terapia fotodinâmica (PDT), que é um tipo especial de laser que é aplicado após a injeção da medicação verteporfina na veia do paciente, esta medicação liga-se especificamente à circulação da coróide, fazendo com que apenas esta região absorva o laser, não causando assim cicatriz à retina. Este tratamento inicialmente era utilizado para tratar a degeneração macular exsudativa e no caso da serosa utiliza-se menos dose ou menos potência. Apesar de ser um tratamento eficaz, na prática é muito pouco realizado devido à grande dificuldade para se ober a verteporfina.

Um tratamento muito realizado hoje em dia é o uso de medicamento antagonista dos mineralocorticóides como a espironolactona, que é um tipo de diurético poupador de potássio, acredita-se que esta medicação possa reduzir a quantidade de líquido subrretiniano, acelerando-se a recuperação do paciente. Também há estudos contraditórios, havendo alguns que apontam resultado positivo, outros bastante desapontadores.

Nos casos crônicos e recidivas pode haver alteração no pigmento da mácula, levando a uma baixa de visão a longo prazo e também em alguns casos pode haver formação de membrana neovascular subrretiniana que requer tratamento, com uma certa urgência com injeções intravítreas de antiangiogênico, este tratamento está bem estabelecido para este tipo de alteração.

Mesmo sendo uma doença que geralmente tem prognóstico, sempre que um paciente apresenta piora da visão, deve buscar atendimento oftalmológico da maneira mais rápida possível, pois há doenças que requerem tratamento urgente para que não haja prejuízo permanente para a visão.

Autor: Dr. Mário César Bulla

Cremers 28.120

Médico Oftalmologista - Especialista em Retina